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sexta-feira, 15 de julho de 2011
terça-feira, 2 de março de 2010
São Paulo que anoitece flamejante...

Saindo do tema deste blog, mas ainda dentro das reconstruções de época e da vida popular...
Esta ilustração foi feita para a revista Unesp Ciência.
O trabalho começou com este "briefing" do editor Ricardo Miura:
"Olá Spacca, obrigado pelo retorno.
É o seguinte, o que precisamos é montar uma cena numa taberna brasileira do final do século XIX, inicio do XX. Algo semelhante a sua ilustra que segue anexo. Acreditamos que pode ficar muito divertida essa cena. A pesquisadora fez a reconstrução de 72 imóveis situados na rua Esperança, atualmente essa rua não existe, ela ficaria ao lado da catedral da Sé. Pensamos em uma ilustra só para o abre da matéria, o cenário seria um bar, com 4 cenas:
Grupo de estudantes da São Francisco sentados numa mesa bebendo cachaça flamejante em cranios humanos.
Grupo de bêbados – italiano, português e dois negros.
Taberneiro atras do balcão brindando com dois populares, lavadeira e carregador de mala conversando no balcão."

A "minha ilustra que segue em anexo" era uma ilustração que fiz para o programa de TV Debret na Futura, esta aqui:

A pesquisadora é Daisy Camargo, autora da tese de mestrado "Alegrias engarrafadas:
os alcoóis e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX".
Os mapas abaixo mostram como era a praça da Sé nesse tempo e como é hoje.

A catedral não existia, a Sé era uma igreja menor, perto da rua Direita.
Na fotografia abaixo, a rua Esperança aparece ao fundo, seguindo ao lado da igreja
(para quem conhece o centro de São Paulo, é seguindo na direção da João Mendes;
a fotografia foi tirada da esquina da XV de Novembro ou Direita).

Então, imaginei meu ponto de vista na tal rua Esperança, de dentro do bar, olhando a torre da igreja por trás.
Primeiro, fiz este "rough" de como via o desenho na página de abertura do artigo:

Fiz então um estudo já mais caprichado, que já dava pra chamar de layout.
O tamanho da ilustração aumentou, o editor conseguiu mais espaço e empurrou o texto uma coluna adiante.
Preenchi então com mais algumas figuras na parte direita.

Layout aprovado, começa a finalização.

A seguir, a colorização no Photoshop.
Primeiro, criei um layer com o layout e a diagramação, de referência,
com as medidas exatas da página, para consultar de vez em quando.
Começo a separar algumas áreas e planos com cor.
Com a cor, me dei conta de que desenhei o boteco sem portas...
Não havia pensado antes, mas na hora de finalizar pensei algo lógico:
Começar pelas luzes do cenário é melhor, porque elas é que vão orientar a luz dos personagens. Lógico.
Sombrinhas, sombrinhas e sombrinhas...
Aqui, desenhei outra cabeça para o portuga.
É que o editor queria um português de bigode, e eu, talvez cansado do clichê, visualizei um lusitano imberbe.
E desenhei meio mal inspirado, e ficou com cara de árabe...
Isso foi me incomodando, então fiz outra tentativa e cheguei nesse seu Manuel aí de baixo.
Manuel chavecando uma Maria.
O que posso fazer, se os clichês do "imaginário", afinal de contas, existiram e andaram entre nós?
Também dei uma mexida nas cores. Tirei bastante amarelo,
e com isso ressaltou o magenta (cor rosa bem forte, usada no sistema gráfico).
Numa avaliação bem subjetiva, perdeu a luz de "filme" e ficou com cara de gravura desbotada,
o que me agradou.

Não ficou uma ilustração realista, mesmo considerando que é um desenho de caricatura.
As figuras estão dispostas e iluminadas para poderem ser vistas e compreendidas
(uma fotografia in loco registraria personagens na penumbra, de costas, fazendo coisas que nem sempre se consegue entender).
(uma fotografia in loco registraria personagens na penumbra, de costas, fazendo coisas que nem sempre se consegue entender).
É mais uma recriação nostálgica, para passar o clima de boteco e ao mesmo tempo, lembrar certas gravuras antigas e desbotadas.
Foi muito legal ter feito essa ilustração, dá vontade de criar uma história só para usar esse ambiente e os personagens.
sábado, 7 de novembro de 2009
Making Of de Jubiabá na revista Ilustrar

O ilustrador e designer Ricardo Antunes, brasileiro radicado em Portugal, me convidou para participar da revista Ilustrar - revista brasileira de ilustração, arte e design.
A revista é um arraaaaaso, de um capricho ímpar.
Só não posso repetir o bordão de que "só tem fera" porque me aceitaram lá também.
Mas fiz o possível para não fazer feio.
(não é modéstia minha, verdadeira ou fingida, é respeito e temor; as edições anteriores, com Benício, Cárcamo, Carlos Nine & cia, impõem no mínimo respeito).
Ilustradores, artistas, designers e simpatizantes TÊM a obrigação de conhecer essa revista.
Não é só pelos trabalhos lindos que ela publica, e as entrevistas e depoimentos dos ilustradores - a direção de arte, o projeto gráfico são de primeira.
A revista por enquanto é gratuita, e você pode baixar o PDF desta e das edições anteriores, aqui:
A capa da edição número 13 traz o talento absurdo do jovem Tiago Hoisel, que já chega humilhando com seu hiper-realismo cheio de humor. Montalvo Machado dá uma aula de sketchbooks, cadernos de esboços para pegar "apontamentos" na rua e registrar desenhos sem compromisso. Renato Alarcão recomenda a realização de projetos pessoais como uma espécie de terapia, para os ilustradores sempre às voltas com encomendas e desenhos para clientes, e abre sua coluna para depoimentos tocantes de vários coleguinhas nossos. E tem coluna assinada pelo Brad Holland, mito da ilustração americana.

Na minha participação, um "passo a passo" em que mostro o desenvolvimento de alguns personagens de Jubiabá, uma página desde o lápis até a arte-final e minha curtíssima experiência com xilogravura para fazer o logotipo da capa e a cena de Baldo na praia que parece gravura.

Ricardo, muitíssimo obrigado pelo convite generoso e parabéns pelo trabalho persistente, impecável e nobilíssimo. Abraço grande.
sábado, 6 de junho de 2009
MAKING OF DA CAPA

Fazer capa, pra mim, sempre foi um parto. A fórceps, de elefante...



Algo me dizia que não estava boa a contracapa... mas a gente perde um pouco a noção, pela pressa ou pela vontade de ver pronto logo.
Depois da capa finalizada, o pessoal da editora começou a achar a contracapa meio poluída... vieram sem jeito pedir para mudar, pois já havia sido aprovada, afinal.
Minha intuição foi confirmada. Ao rever a capa depois de alguns dias, ela me pareceu super atravancada. Bem desenhada, mas no conjunto, tudo meio apertado, muita informação.

Nunca fiquei muito satisfeito com as minhas capas. Talvez por estar ciente da sua importância, das várias funções (destacar-se numa livraria ou num catálogo, ser informativa, atraente, mostrar o conteúdo sem entregar todo o ouro...). É como uma embalagem.
Tinha medo que, por excesso de informação, ficasse uma capa como a do D.João Carioca, simpática, mas cheia de elementos dispersivos.
Tinha medo que, por excesso de informação, ficasse uma capa como a do D.João Carioca, simpática, mas cheia de elementos dispersivos.
Por isso apelei ao super Bruno Porto, designer carioca radicado em Shangai, China, para pedir alguns pitacos. Ele se animou, fez muito mais que isso e prestou uma verdadeira consultoria de capa de quadrinhos.
Meu pedido de socorro não partiu do zero. Eu já havia quebrado a cabeça e tinha feito estes estudos. O primeiro é o layout que fez parte da proposta da editora, ainda na fase da concorrência pelos direitos do Jorge Amado. Quem conhece a história vai perceber que eu ainda não havia lido o livro inteiro.
E os desenhos seguintes são uma tentativa de mostrar de tudo um pouco.
Meu pedido de socorro não partiu do zero. Eu já havia quebrado a cabeça e tinha feito estes estudos. O primeiro é o layout que fez parte da proposta da editora, ainda na fase da concorrência pelos direitos do Jorge Amado. Quem conhece a história vai perceber que eu ainda não havia lido o livro inteiro.
E os desenhos seguintes são uma tentativa de mostrar de tudo um pouco.
O Baldo boxeador domina a cena, e o pai de santo Jubiabá aparece no alto, como se fosse o Obi Wan do Baldo, falando "que a força esteja com você" em nagô :)
Já achava tudo muito antigo. Eu queria algo retrô, mas não antiquado.
E também queria destaque para o Baldo herói, lutador, por influência da Festcomix que eu havia visitado recentemente. Sem deixar de ser "Bahia de Jorge Amado".
Já achava tudo muito antigo. Eu queria algo retrô, mas não antiquado.
E também queria destaque para o Baldo herói, lutador, por influência da Festcomix que eu havia visitado recentemente. Sem deixar de ser "Bahia de Jorge Amado".
E mais: tinha que ter CARA DE GIBI.
Bruno concordou que precisava de um upgrade e mandou um monte de capas de HQ que ele achava legais. Coisas que mostrassem heróis, brincassem com o retrô-moderno.

Fiquei bobo com as capas do Bá & Moon para o Umbrella Academy e outros trabalhos. Layout (composição) sempre magnífico, limpo e instigante, elegante e cool... Gostei também da capa do "Capote em Kansas".

Fiquei bobo com as capas do Bá & Moon para o Umbrella Academy e outros trabalhos. Layout (composição) sempre magnífico, limpo e instigante, elegante e cool... Gostei também da capa do "Capote em Kansas".
Daí fiz a minha lição de casa. Desenvolvi o tema do lutador, hierarquizando os elementos em planos, tentando composições geométricas mais definidas.

Achei importante destacar a placa do bar "Lanterna dos Afogados" por causa da música dos Paralamas do Sucesso - foi uma surpresa ler o romance e descobrir que esse nome viera dali.
O layout inspirado em "Capote em Kansas" mostra Baldo saindo do Lanterna com uma "cabrocha", com a luz do bar projetando no chão. Eu gostei desse, o Bruno também... seria uma capa mais suave, tem um climão.
Mas eu estava resolvido a investir na capa do Baldo lutador, mais dinâmica e, achava eu, mais atraente para o leitor de HQ.
Foi então que pegamos um desvio para o pop e o bizarro...

Bruno ficou maluco quando soube que o Baldo em certa altura lutou num circo, vestido com pele de tigre igual ao Lothar do Mandrake. "Isso eu não sabia que era Jorge Amado", ele disse. E resolvemos apostar nesse caminho.

Bruno ficou maluco quando soube que o Baldo em certa altura lutou num circo, vestido com pele de tigre igual ao Lothar do Mandrake. "Isso eu não sabia que era Jorge Amado", ele disse. E resolvemos apostar nesse caminho.
O Bruno também andava fazendo uns cartazes com cartazes colados em muro, pichações... então eu fiz um cartaz do Baldo de lutador com design circense, com aquele colorido berrante e decadente dos circos. E para manter a ambientação em Salvador, o cartaz estava colado numa parede, e da parede continuava um cenário noturno com outros personagens ao fundo.
Alguns amigos torceram o nariz - o cartunista Érico San Juan disse, não sem razão, que "não parecia capa e podia confundir". Bem, estranhamento era tudo o que a gente queria.
Ficamos fascinados com esse caminho e viajamos legal na idéia.
E apresentei um layout bem acabado para a Cia. das Letras.
Eles devem ter estranhado à beça, e não aceitaram...
Eu estava preparado para essa possibilidade. E fui no plano B.
Segui então o caminho do "Baldo boxeador".

Procurei retratar uma atitude menos óbvia, no intervalo entre uma luta e outra (não dá para saber se ele está ganhando ou perdendo), quis mostrar bem os símbolos da tatuagem no peito e a figa.
Pai Jubiabá paira como uma vinheta ou um fantasma sobre a cena.
Gosto dessa função sobrenatural de Jubiabá, bem frontal como uma máscara africana, como um totem, contrastando com a presença viva de Baldo, o verdadeiro protagonista desse romance.
E fiquei muito satisfeito com a composição, parecia que funcionava com qualquer cor e com variações (com igreja, sem igreja, só em traço etc).
Porém, esta segunda opção deu trave de novo.
A editora argumentou que o romance não era só boxe; que aquela era uma parte pequena em relação à saga de Antonio Balduíno.
É verdade; mas eu achava que isso não era problema, pois "Baldo lutador" podia simbolizar todas as outras lutas daquele personagem.
Às vezes, o que "pega" não é exatamente o que está sendo discutido, e sim alguma outra impressão não dita...
Então pensei: até agora, apresentei apenas capas "de moleque", talvez masculinas demais... e se eu mostrar aquela do Baldo saindo do Lanterna? Era mais elegante e sugestiva (a gente achou mesmo que tinha mais "cara de Companhia das Letras", mas eu queria uma capa de herói...).
A editora argumentou que o romance não era só boxe; que aquela era uma parte pequena em relação à saga de Antonio Balduíno.
É verdade; mas eu achava que isso não era problema, pois "Baldo lutador" podia simbolizar todas as outras lutas daquele personagem.
Às vezes, o que "pega" não é exatamente o que está sendo discutido, e sim alguma outra impressão não dita...
Então pensei: até agora, apresentei apenas capas "de moleque", talvez masculinas demais... e se eu mostrar aquela do Baldo saindo do Lanterna? Era mais elegante e sugestiva (a gente achou mesmo que tinha mais "cara de Companhia das Letras", mas eu queria uma capa de herói...).
E apresentei. "Sucesso total", respondeu a Helen da Cia. por email.

Bom. Resolvido! Habemos capa!
Falei do resultado para o Bruno e comemoramos 15 mil km um do outro.
Voltei ao trabalho de finalizar o Jubiabá.
Uns três meses depois, depois de colorir a última página, peguei a capa para finalizar.
Completei o layout com os personagens e o Jorge Amado, aprovaram, e finalizei.
Algo me dizia que não estava boa a contracapa... mas a gente perde um pouco a noção, pela pressa ou pela vontade de ver pronto logo.
Depois da capa finalizada, o pessoal da editora começou a achar a contracapa meio poluída... vieram sem jeito pedir para mudar, pois já havia sido aprovada, afinal.
Minha intuição foi confirmada. Ao rever a capa depois de alguns dias, ela me pareceu super atravancada. Bem desenhada, mas no conjunto, tudo meio apertado, muita informação.
Eu havia feito assim para compensar a capa mais clean.
Então fiz uma experiência, de separar um pouco os elementos, retirar algumas coisas...
Aí me deu um estalo.

Lembrei da cena noturna do layout do cartaz de circo. E achei que combinava, formava uma unidade, mantinha a atmosfera da capa.
Bingo. Aprovaram, que beleza, muito legal...
Bingo. Aprovaram, que beleza, muito legal...
Gostei do processo, das voltas, e de como ficou.
Acabou ficando uma capa lunar, os personagens são apenas sugeridos na paisagem noturna, abre espaço para a imaginação. Eu olho essa capa e penso no vozeirão de Caymmi, Baldo encarnando "João Valentão" e alguns metros adiante, quebrando na praia, o maaaaar...
A brincadeira da capa começou em agosto e terminou em abril. Nove meses de quebra-cabeça.
Eu sabia que ia ser um parto...
Vejam o site da Companhia das Letras... aliás, do selo QUADRINHOS NA CIA e confiram os lançamentos.
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